Janis e Eu

Lembro que vi uma máquina estranha, com um monte de luzes coloridas. Andei de um lado para o outro procurando alguém que me explicasse que merda era aquela. Não achei ninguém. Ou quase ninguém! Parado num canto avia um pequeno rato de casaco de couro usando óculos e uma pinta no focinho, coçou com sua patinha os olhos por baixo da lente e disse:
- Isso ai é uma máquina do tempo!
- O que? - Perguntei  
- Uma máquina do tempo, seu Mané! Gritou irritado o Rato.
- Mas...
- Ora, ora, seu Mané... Por acaso não sabes o que é uma máquina do tempo...? Uma máquina que pode viajar através do tempo...
- Sei, sei. Sei o que é uma máquina do tempo... Mas...
- Mas...ah, já sei nunca escutou um rato falar é isso?
- Nem quando eu dou uns “tecos” vejo algo assim... Acho que aquela maconha tava estragada...!
- Hã hã...! Não tinha nada errado com aquela maconha... Eu mesmo fumei e to di boa...!
- Ah, sei... É um sonho! Ou pirei errado de novo! Ah, não... Aquele manicômio é foda... Dão choques na gente... E tem umas ratazanas nojentas que ta loco...! Ah desculpe não quis ofender a sua mãe...
- Para com essa conversa... Ta me enchendo o saco! Vai querer saber mais sobre a máquina ou não?
- Claro! Mais quem é você?
- Um rato, seu burro...! Tá bom desculpe... Sou na real uma cobaia de laboratório. O cientista que construiu essa máquina, em 2070 me mandou pra cá.
- 2070!!! Caralho!(o caralho eu só pensei, não falei, pois meu amigo poderia não gostar).
- È, 2070. O cara é “doente”, maluco, usa droga pra caralho (ih ele disse “caralho”)  
- Mesmo? Um cientista chapado...
- É... Ele usa uma droga chamada macroina, que é uma mistura de maconha, crack e cocaína e leva uma pitada de bosta de cachorro...Uma grama e o cara pira um mês...
- Porra! E você tem alguma ai?
- Não!O cuzão do cientista usou tudo! Vai ficar loco uns 10 anos. Da de eu viajar no tempo uma porrada de tempo e ele nem vai perceber.
- É mesmo!?
- Bom chega de conversa besta! Você vai querer saber da maquina?
- Porque eu?
- É que você tem uma coisa desenhada na camisa que tinha em vários lugares no laboratório - Disse o rato apontando minha camisa onde estava estampada uma foto de Janis Joplin.
- Ta falando dessa foto? Da Janis?
- É isso aí! O Dr. Hendrix é fissurado por essa mulher ai!
- Dr. Hendrix!!! - Dei um berro. – É esse o nome do cara? Ta tirando uma com minha cara seu camundongo de merda!  
- To não! Por quê?
- Deixa pra lá... É uma historia longa demais pra te explicar agora! Mais o cara em 2070 é fissurado em Janis? Não acredito!  
- È ele dizia que tinha inventado a macroina pra poder ficar igual a ela. E que queria construir a porra da máquina do tempo e voltar cem anos pra conhecer a tal Janis.
- Caralho cara! – Gritei.
- Isso aí, meu chapa! E não é só ele, tem uma galera lá que curte Janis, Led, Mutantes, Floyd, todas essas bandas...
- 2070, 2070, 2070, 2070 - Fiquei repetindo que nem uma besta - Curtem Rock n Roll em 2070!
- Mais e aí, você vai me ajudar?
- Como assim, te ajudar?  
- Seguinte, o porra do Dr. Hendrix tava muito loco quando me colocou dentro da máquina. Meu destino era a época em que a tal Janis estava viva. Eu tinha que levar alguma coisa pra mostrar que era possível chegar. Ai eu voltava e ele iria pra época. O problema é que ele se esqueceu de programar a época certa... E eu vim parar aqui... O problema é que não sei direito a época...
- Ok! Te digo a época. Pode colocar ai...
- Espera aí... Você acha que eu vou sozinho?! Ta loco? Acha que vou confiar em você?     
- Você vai comigo... Afinal você também parece que gosta da tal.
- Ta... Gosto! Quer dizer amo!... Quer dizer... Mais viajar nessa porra... Junto com um...
- “Rato branco de jaqueta e óculos, que fala”. É isso que você ia dizer né? Preconceituoso!
- Poh, não é preconceito. É...
- O quê, então?
- Deixa quieto! Mas eu não caibo dentro dessa máquina!
- Deixa de ser burro! Você pensa que vai entrar na maquina? Isso não é ônibus, parceiro!
- Mais que rato chato, você, não?!
- Hahahahaha! - O rato soltou uma gargalhada – vai querer ir ou não?
- Vamos nessa! Afinal a possibilidade de conhecer Janis pessoalmente com certeza me faz correr qualquer risco.
O rato pulou perto da máquina, apertou um botão e uma espécie de uma escotilha abriu exibindo uma espécie de um teclado e um monitor de computador.
- Vamos lá! Para que ano nós vamos?
Pensei um pouco sobre varias épocas que seria legal conhecer Janis. “Monterrey Pop, em 68? Não! Woodstock, em 69, também não, muita gente nesses dois lugares... Ah, já sei em 1970, meses antes dela morrer. Rio de Janeiro, Carnaval...”. E berrei para o rato que me olhava com uma enorme interrogação nos olhos:
- Fevereiro de 1970, Rio de Janeiro!!!
- Mais ela não é americana do Texas? Pelo menos foi isso que o Dr. Hendrix falava.
- È isso. A informação é correta, mais ela esteve no Brasil... Deixa quieto. Você vai ver!
O rato apertou umas teclas com suas miúdas patinhas e de repente um mapa da cidade do Rio pulou na tela.
- È isso! Gritei. Vamos, vamos! - Comecei a ficar cada vez mais ansioso. - Vai logo com isso!
- Calma cara! Pensa que isso aqui é filme de ficção?! Tem muitos ajustes de freqüência pra fazer, senão a gente acaba indo parar no lugar errado.
- Ok, rato. Nerd!
O rato ficou ali, quieto, vez outra ajeitando os óculos, mexendo umas teclas apertando uns botões. Depois de certo espaço de tempo, soltou um barulho que parecia mais o relincho de um cavalo.
- Yeah! Esta pronto! - Apertou um botão e uma espécie de uma plataforma saiu de dentro da máquina – Suba ai! Disse o rato.
Uma sensação de medo  me fez tremer e gelar, pensei em desistir.
- Ta com medo, palhaço? - O rato agora ria.
- Onde subo? Aqui? - E dei uns passos e subi na plataforma.
O rato apertou uma tecla e rapidamente veio se instalar sobre o meu ombro esquerdo.
- Yuhaaaaaaaaa! - Gritou ele. - Janis Joplin aqui vamos nós.
Depois de alguns segundos, sem que eu tenha notado barulho, luzes, ou qualquer anormalidade, me vi com meu amigo rato no ombro, parado em plena Avenida Atlântida, no Rio de Janeiro. De repente levei um esbarrão de uma mulher que cambaleava bêbada, e quando me virei pra xingá-la, vi que era...
- Caralho!!! Janis!!! - Soltei um berro.  
- Excuse you know? - Ela perguntou. Mais. Ao mesmo tempo olhou pra minha camisa que tinha sua foto embranqueceu - Oh, shit! It’s me in you T-shirt?
- Yes, it´s you! I love  you! “Move Over”, “Summertime”, “Cry Baby”, “Mercedes Benz”… e comecei a recitar os nomes de todas as suas musicas, excitado, quase às lagrimas; parecia que meu coração e minha cabeça iam explodir...
- Yes, man!!! Uau!!! Mais tem musica ai que é do meu próximo disco o “Pearl”... Como você conhece?
E ai sem mais sem menos ela começou a conversar comigo em bom e velho português...
- Janis. Eu a conheço e a amo faz mais de 20 anos!
Janis deu uma gargalhada daquelas bem peculiares e disse:
- Como pode então você nasceu e já gostou do meu som...  
Enquanto ela falava, eu não despregava os olhos de seus mamilos pela blusa redonda. Não podia acreditar no que estava acontecendo. Janis, ali, parada em minha frente, com seus mamilos eretos, seus óculos redondos, cabelos despenteados... E um enorme bafo de bebida!
- Me paga uma bebida, man?
- Claro, Janis!
Entramos em um buteco fedido, o primeiro que encontramos e começamos a beber. Claro que Janis chamou atenção, mais pelas suas roupas e modos. Não podemos esquecer que estávamos em 1970e alem de suas roupas e atitudes serem totalmente estranhas por aqui, ainda ela era praticamente uma desconhecida. E muita gente não entendia porque eu tinha uma foto da minha amiga estampada numa camiseta. Eu ria em pensamento daquela situação.  Janis ria muito, falava sem parar e num dado momento sem mais sem menos soltou: “Oh lord, won’t you buy me a Mercedes Benz/ my frinds all drive Porsches, I must make amends...”. Cantou “Mercedes Benz” ali de pé naquele bar com um copo de caipirinha na mão e um cigarro na outra.
- Gostou? - Ela perguntou
- I Love! - respondi sem quase chorando “Mercedes Benz” é minha preferida.
E Janis pediu outra bebida e ficou ali, batendo os dedos no balcão com o braço cheio de pulseiras, vez outra, balançado o quadril ao som de uma musica que só ela ouvia. E eu ali, extasiado, até que uma hora não agüentei mais, segurei pelos ombros e a beijei.
- Ooh! - Oh , man! Você me ama? - Ela me falou.
- Sims, Janis! Eu te amo “Take another little piece of my heart now, baby!”   
Uma sensação estranha invadiu minha alma uma mistura alegria incontrolável com tristeza, ai irrompi em choro quase convulsivo. Abracei Janis e banhei seu rosto com minhas lagrimas. Ela perguntou.
- Porque esta chorando?!
- Emoção Janis! Emoção! Canta “Ball And Chain”.
Janis pediu outra bebida, se ajeitou e sublinamente soltou a voz
As pessoas que estavam ali naquele bar, garçons, putas e o próprio dono se levantaram e urraram. Começarão a trazer bebidas e então ficamos-nos, ali, bebendo e fumando. Janis cantou outra musica e depois saímos andando até o hotel onde ela estava hospedada.
Apanhamos as chaves e subimos as escadas, bêbados e abraçados. Janis entrou no quarto, foi ao bar e pegou outra bebida e me ofereceu um trago. Bebemos ali, no mesmo copo e ela começou a cantar “Summertime”
- “Cryyyyyyyyyyyyyyyyy Baby!/Honey, welcome back home (…)”
Nesse momento Janis encostou o rosto em minha camiseta onde estava estampada a sua foto e permaneceu ali durante alguns minutos, quieta apenas soltando pequenos gemidos.
E depois o mundo silenciou! Aquele dia bebemos e nos amamos.
“Nada mais parecia existir. Aquele dia eu nasci. Meu coração quase parou.
É que nunca vai existir uma mulher com Janis. A última coisa que me lembro daquela noite foi esse pensamento.
Quando acordei de manha, Janis tinha sumido, perguntei para o recepcionista do hotel e ele me falou que ela avia ido pegar seu voou. Vesti minha camiseta e sai do quarto. Procurei-a durante muito tempo e então me lembrei de como eu avia chegado ali. Onde estaria o rato de óculos? Em meu êxtase por encontrar Janis, esqueci completamente dele. Repentinamente, olhei sobre meu ombro esquerdo e ele estava ali.
- Ei, cara!
- Onde você esteve?    
- Sempre estive aqui!
- Serio?  Até mesmo...
- Mesmo lá!
- O que achou dela?
- Ela é fantástica, sublime, maravilhosa, sensacional. Quando voltar e contar a Dr. Hendrix ele vai entrar em êxtase, e sem a macroina.
- Só fico triste em saber que daqui a poucos meses ela estará morta!
- Não fique triste, cara! Ela vai ser eterna em sua mente e em ser coração, vai alimentar sonhos, as alegrias e tristezas de muitas e muitas gerações. Em outras palavras, ela é eterna.  
- Ok Rato... Alias, acho que preciso voltar pra minha época.
- Certo. Vamos ajustar as coordenadas
Dito isso, o rato apertou algumas teclas, baixou a plataforma e no segundo seguinte eu estava naquele mesmo local onde eu o encontrara.
Bom, cara preciso voltar. O Dr. Hendrix já deve ter acabado sua viagem de macroina e preciso contar a ele sobre nossa jornada.
- Ok. Mas não me dei conta. Como é seu nome rato?
- Sergei! O Dr. Hendrix disse que é também em homenagem a ela
- E é! - Falei   
Serguei levantou os óculos redondos deu uma piscada e depois teclou a confirmação de ser retorno. Pude ver na tela do monitor seu destino.
- Mais, esse endereço, Sergei... De onde é esse endereço?
- Do laboratório do Dr. Hendrix.
- Não pode ser!
- Porque não?    
Gelado dos pés a cabeça, quase não conseguindo falar disse:
- Porque esse é exatamente o endereço da minha casa, hoje!!!
O rato permaneceu um instante em silencio, depois apertou a última tecla e... Sumiu.
Ajoelhei no chão e com a mente queimando espalmei as mãos em minha camiseta. Algo estranho tinha acontecido com ela. Retirei do corpo para poder examiná-la mais de perto percebi que em lugar daquela estampa industrial existia uma imagem real, parecendo ter sido estampada com sangue diretamente do rosto de uma pessoa. Segurei aquela camiseta em prantos e consegui ainda gritar:
- Jaaaaaaaniiiiiiiiiis!!!!
Minha mãe me chacoalhou:
- Esta na hora de acordar, vai dormir o dia inteiro vagabundo? Tem que trabalhar!
Transpirando muito com a roupa encharcada de suor resmunguei:
- Já vou mãe! Tava tendo um sonho tão legal!
- É só isso que você sabe fazer, mesmo!!! Sonhar!!! Pára de sonhar!!!
“Puxa” ainda pensei, “Que pena que só foi um sonho.”
Nesse momento minha mãe olhou para minha camiseta e espantada resmungou:
- Que merda você fez com sua camisa? Ta toda suja de sangue.
Olhei para minha camiseta que tinha me esquecido de tirar antes de dormir, uma camiseta com a foto de Janis Joplin estampada e percebi que no lugar daquela existia uma real parecida que foi estampada pelo rosto de uma pessoa...
E de algum lugar, vinha um som, parecia que era de dentro de minha cabeça:
“ Yeah!!!/  yeah!!!/ Whoaa... yeah!!!/ You trought you had found yourself a good girl/ One who woud love you and give you the world  (…)”.




Contei essa história para alguns amigos e eles não quiseram me ouvir, acho que é ciúme, mais tudo bem. Eu reparto a emoção com eles nesse texto.



Fontes: www.abarata.com.br, www.lagrimapsicodelica.blogspot.com, www.wikipedia.com, anos60.files.worpress.com